Por Agamenon Martins / Advogado Trabalhista
O estudo do impacto do uso de calçados profissionais na biomecânica tem ganhado maior evidência internacional nos últimos anos. Mesmo que a literatura brasileira ainda seja escassa, já é possível encontrar, inclusive, revisões sistemáticas a respeito do tema em revistas científicas internacionais.
O principal aspecto desses calçados é o interesse original de proteção e segurança, em detrimento ao conforto e adaptação de acordo com as características cinesiológicas individuais. O desenho estrutural convencional levantava hipóteses de geração de alterações funcionais importantes. A primeira é a restrição da mobilidade talocrural (da articulação do tornozelo), o que se repete para as articulações interfalangeadas (dos dedos dos pés). O equipamento não acompanha a angulação completa dessas articulações, limitando a sua amplitude. Por si só, isso gera desgaste de energia muscular numa contração concêntrica mantida, sem a completude do movimento, o que tensiona as partes moles, inclusive as fáscias, mais que o esperado, abrindo possibilidade para processos inflamatórios locais.
Há ainda um terceiro problema, esse relacionado ao solo do calçado. As palmilhas sem mobilidade e sem o estímulo de uma distribuição pressórica ideal podem gerar alterações identificáveis no exame de baropodometria. Essas alterações, em longo prazo, prejudicam o funcionamento das articulações superiores: joelhos, quadris e articulações da coluna vertebral.
Regiões geradoras de alterações funcionais
Em 2010, um estudo publicado na Revista de Biomecânica, por pesquisadores alemães, comprovou que o cano rígido da bota diminui a amplitude de movimento do tornozelo de adultos jovens, bem como, diminui o controle excêntrico de absorção do impacto no toque do calcanhar no chão. Como resultado, forças compensatórias são necessárias nos joelhos, o que causa fadiga precoce dos músculos da coxa, além de facilitar lesões nessas articulações com o uso diário e prolongado.
O estudo se chama “Efeito da rigidez da haste da bota na estabilidade, energia articular e muscular co-contração durante caminhada em superfície irregular” e os autores são Harald Bohm e Matthias Hosl. Suas instituições: Gait Laboratory, Orthopedic Hospital for Children, Bernauerstr e Department of Sports Equipment and Materials, Faculty of Sport Science. O artigo completo pode ser encontrado em:
https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0021929010003167
Já em 2016, uma pesquisa estudou o impacto das botas/sapatos na marcha de trabalhadores de uma plataforma petrolífera. O artigo científico foi publicado na Revista Internacional de Segurança Ocupacional e Ergonomia por pesquisadores da China e dos Estados Unidos. Neste estudo, as botas/sapatos de proteção de trabalho foram examinadas em comparação com tênis de corrida, através testes de desempenho humano. As cargas foram
transportadas simetricamente e assimetricamente nos ombros e nas mãos. A análise estatística dos dados mostrou que as botas/sapatos prolongam a fase de apoio da marcha, diminuindo o tempo de apoio do corpo pelos dois membros inferiores. Essa diferença aumenta à medida que a carga transportada também aumenta.
Este estudo comprovou que as botas/sapatos de trabalho são inflexíveis e pesadas, restringem o movimento do pé e exigem maior torque no tornozelo para impulsionar o corpo para frente, o que aumenta o esforço físico e o risco de lesões músculo-esqueléticas. Os autores são Miao Tian, Huiju Park, Heekwang Koo, Qinwen Xu & Jun Li. As instituições: Protective Clothing Research Center, Cornell University e Donghua University. A publicação na íntegra pode ser encontrada em:
https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/10803548.2016.1212483
Outro estudo, intitulado “Efeito da rigidez da haste da bota de trabalho e da flexibilidade da sola na musculatura dos membros inferiores atividade e alinhamento do tornozelo no contato inicial do pé com o solo ao caminhar superfícies simuladas de mineração de carvão: Implicações para reduzir o risco de escorregamento”, foi publicado em 2019 na Revista Ergonomia Aplicada. Os autores australianos comprovaram que as botas/sapatos de trabalho têm o potencial de influenciar a forma como os pés dos mineiros subterrâneos interagem com as superfícies em que andam e, por sua vez, geram risco de deslizamentos.
Apesar do solado antiderrapante, a falta de controle motor imposta pela própria bota diminui o controle motor. A rigidez do eixo afeta a forma como os mineiros andam. O estudo concluiu que, para diminuir o risco, as botas/sapatos deveriam ter mais flexibilidade (semelhante a um calçado convencional ou respeitando a biomecânica individual) para reduzir o risco de escorregamento dos mineiros de carvão subterrâneos. Os autores são: Jessica A. Dobsona, Diane L. Riddiford-Harlanda, Alison F. Bellb, Caleb Wegener e Julie R. Steelea. As instituições: University of Wollongong e University of Sydney. O estudo na íntegra é encontrado em:
https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0003687019301346?via%3Dihub
A mesma revista, dois anos antes, publicou o artigo dos mesmos autores, intitulado “O design das botas/sapatos de trabalho afeta a maneira como os trabalhadores andam: uma revisão sistemática da literatura”. A possibilidade de se fazer uma revisão sistemática significa que outros autores já estudaram o assunto antes. O artigo traz as referências bibliográficas e, basicamente, a pesquisa comprovou que as botas/sapatos de segurança são frequentemente concebidas com o intuito de proteção, em detrimento da funcionalidade e do conforto. Ou seja, são causadoras de danos funcionais. O artigo na íntegra está em:
https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0003687017300091?via%3Dihub
A literatura científica comprova que as botas/sapatos dos trabalhadores geram alterações funcionais. Essas alterações locais repercutem nas articulações superiores, aumentando a carga muscular. Um ponto preponderante é o tempo de exposição e o outro é a carga da atividade. As pesquisas também demonstraram que os danos aumentam conforme há aumento da carga. Ou seja, aliando as alterações cinesiológicas diretamente causadas pelas mudanças biomecânicas, impostas pelas botas/sapatos, às influências “carga” e “tempo de exposição”, teremos um contexto perfeito para a geração de problemas musculoesqueléticos e consequente incapacidade laborativa.
Sendo assim, em casos concretos de problemas músculoesqueléticos de trabalhadores usuários de botas/sapatos como equipamento de proteção individual (EPI) obrigatório, é correto o estabelecimento de nexo de causalidade, a ser classificado e tipificado.
São Paulo, 28 de dezembro de 2023